Mostrando postagens com marcador outrens. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador outrens. Mostrar todas as postagens

abril 08, 2009

Palavras ao vento - Alfabeto

"A primeira letra do alfabeto é também a primeira letra da palavra amor e se acha importantíssima por isso! Com A se escreve "arrependimento" que é uma inútil vontade de pedir ao tempo para voltar atrás e com A se dá o tipo de tchau mais triste que existe: "adeus"... Ah, é com A que se faz "abracadabra", palavra que se diz capaz de transformar sapo em príncipe e vice-versa...

Com B se diz "belo" - que é tudo que faz os olhos pensarem ser coração; e se dá a "bênção", um sim que pretende dar sorte.

Com C, "calendário", que é onde moram os dias e o "carnaval", esta oportunidade praticamente obrigatória de ser feliz com data marcada. "Civilizado" é quem já aprendeu a cantar ´parabéns pra você` e sabe o que é "contrato": "você isso, eu aquilo, com assinatura embaixo".

Com D , se chega à "dedução", o caminho entre o "se" e o "então"... Com D começa "defeito", que é cada pedacinho que falta para se chegar à perfeição e se pede "desculpa", uma palavra que pretende ser beijo.

E tem o E de "efêmero", quando o eterno passa logo; de "escuridão", que é o resto da noite, se alguém recortar as estrelas; e "emoção", um tango que ainda não foi feito. E tem também "eba!", uma forma de agradecimento muito utilizada por quem ganhou um pirulito, por exemplo...

F é para "fantasia", qualquer tipo de "já pensou se fosse assim?"; "fábula", uma história que poderia ter acontecido de verdade, se a verdade fosse um pouco mais maluca; e "fé", que é toda certeza que dispensa provas.

A sétima letra do alfabeto é G, que fica irritadíssima quando a confundem com o J. G, de "grade", que serve para prender todo mundo - uns dentro, outros fora; G de "goleiro", alguém em quem se pode botar a culpa do gol; G de "gente": carne, osso, alma e sentimento, tudo isso ao mesmo tempo.

Depois vem o H de "história": quando todas as palavras do dicionário ficam à disposição de quem quiser contar qualquer coisa que tenha acontecido ou sido inventada.

O I de "idade", aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário, queira ou não queira.

J de "janela!, por onde entra tudo que é lá fora e de "jasmim", que tem a sorte de ser flor e ainda tem a graça de se chamar assim.

L de "lá", onde a gente fica pensando se está melhor ou pior do que aqui; de "lágrima", sumo que sai pelos olhos quando se espreme o coração, e de "loucura", coisa que quem não tem só pode ser completamente louco.

M de "madrugada", quando vivem os sonhos...

N de "noiva", moça que geralmente usa branco por fora e vermelho por dentro.

O de "óbvio", não precisa explicar...

P de "pecado", algo que os homens inventaram e então inventaram
que foi Deus que inventou.

Q, tudo que tem um não sei quê de não sei quê.

E R, de "rebolar", o que se tem que fazer pra chegar lá.

S é de "sagrado", tudo o que combina com uma cantata de Bach; de "segredo", aquilo que você está louco pra contar; de "sexo": quando o beijo é maior que a boca.

T é de "talvez", resposta pior que ´não`, uma vez que ainda deixa, meio bamba, uma esperança... de "tanto", um muito que até ficou tonto... de "testemunha": quem por sorte ou por azar, não estava em outro lugar.

U de "ui", um ài" que ainda é arrepio; de "último", que anuncia o começo de outra coisa; e de "único": tudo que, pela facilidade de virar nenhum, pede cuidado.

Vem o V, de "vazio", um termo injusto com a palavra nada; de "volúvel", uma pessoa que ora quer o que quer, ora quer o que querem que ela queira.

E chegamos ao X, uma incógnita... X de "xingamento", que é uma palavra ou frase destinada a acabar com a alegria de alguém; e de "xô", única palavra do dicionário das aves traduzida para o português.

Z é a última letra do alfabeto, que alcançou a glória quando foi usada pelo Zorro... Z de "zaga", algo que serve para o goleiro não se sentir o único culpado; de "zebra", quando você esperava liso e veio listrado; e de "zíper", fecho que precisa de um bom motivo pra ser aberto; e de "zureta", que é como fica a cabeça da gente ao final de um dicionário inteiro."

Pedro Bial

mais bonito na voz do Lázaro Ramos --> http://www.youtube.com/watch?v=o3Nx9nyNd_4

fevereiro 10, 2009

Texto alheio

Depois do gostar, o sentir

S e n t i m e n t o .
A vida inteira pode caber numa palavra. Mas a uma palavra às vezes não tem infinito que chegue para acomodar.
Diz-se que teve um poeta que não conseguindo domar a explosão de sentidos imprevisíveis das palavras acabou se matando. Tudo bem, quem lê as poesias do Torquato percebe que ele só podia mesmo chegar ao suicídio, então não vamos por a culpa inteira na linguagem, mas que elas são mesmo de dar nó na linha do juízo, ah são.
Quando é uma palavra assim tão abstrata como um sentimento então, tem estrada pra viajar até... Lembrei de um filme onde as pessoas tomavam um remédio para não sentir. Até gostei, mas eu observava várias formas de sentimento nas pessoas em que o filme tentou mostrar nulas deste "mal".
É que não é concebível a existência sem sentir. Não pra mim, ao menos.
Outro poeta escreveu:
"por favor uma emoção pequena, qualquer coisa
qualquer coisa que se sinta
tem tantos sentimentos
deve ter algum que sirva"

É bonito, mas sentimento é mais que emoção.
E é mesmo bom sentir. Ver, tocar, beijar, comer, chorar, cair, doer, ouvir, pegar, abraçar, jogar, parar, dormir, acordar. Isso pra citar só alguns dos sentimentos da classe dos verbos.
Eu adoro sentir música, sentir filme, sentir fome pra sentir comida, gosto de sentir poesia, de sentir coisas que não sei descrever mas que são boas, gosto de senti-la.
Pensando e repensando essa coisa que é existir, até ouso desafiar três mil anos de filosofia pra dizer: sinto, logo existo.

Éverton Diego

dezembro 21, 2008

novembro 09, 2008

Madrigal Melancólico


O que eu adoro em ti

Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza

O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha

Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz

O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai

O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.

O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é a vida!

Manuel Bandeira

julho 02, 2008

L de Leminski


M. DE MEMÓRIA


Os livros sabem de cor
milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.
Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.
um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.
Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.
Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

Cachorro-Louco-Filho-da-Puta!

maio 08, 2008

Tempo



"De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo."

Caio Fernando Abreu

"A URGÊNCIA

Então baixou a pressa.
Não tinha mais um dia a perder, pois embora fosse muito cedo, começou a suspeitar que era também desesperadamente tarde demais. Procurou Betinha, bilhete pronto, escrito com Parker em folha de arquivo. Quero falar contigo amanhã sem falta, na praça, depois da aula.
- Tu sabes? - perguntou Betinha, olho no olho.
Ele disse que sim.
De tardezinha, veio a resposta: Beatriz concordava. Amanhã na praça, sem falta.
- Mas tu sabes mesmo? - Betinha perguntou novamente.
Outra vez, disse que sim. Perguntou se era verdade. Betinha sacudiu a cabeça, que era.

Ele olhou bem, quase meio-dia da manhã seguinte, sentados num banco do centro da praça. Enquanto pedia, trêmulo de amor:
- Beatriz, quero namorar contigo.
Ela apertou contra o peito um livro de História do Brasil:
- Tu é muito criança - disse.
Quase não conseguia olhar para ela. Olhava o chão de pastilhas coloridas no centro da praça. Formavam círculos, quadrados, estrelas grandes e pequenas. Menores ainda, estreletes.
- Mas se eu sou criança - foi dizendo devagar, convincente -, se eu sou criança tu também é, porque só tens doze anos.
- Treze - ela corrigiu. E ergueu o rosto para o sol no meio do céu."

Os Dragões não Conhecem o Paraíso

abril 24, 2008

E ainda é preciso drogas???

- uma hora tu quer uma coisa, na outra tu quer o q já tinha, e quando tem quer o q tinha de novo!! aff!

- e quando pára pra pensar o troço sai correndo prq já são 3 da manhã e você tah com fome e uma insônia da peste!

- o q a gnt disse?

abril 11, 2008

The delirium has just began

Delírio é a mais jovem dos Perpétuos.

Ela cheira a suor, vinho azedo,

noites tardias e couro velho.

Seu reino é próximo, e pode

ser facilmente visitado.
As mentes humanas, porém,
não foram feitas para compreender
seu domínio, e os poucos
que viajaram até ele conseguiram
relatar apenas fragmentos perdidos.

Sua aparência, um amontoado de

idéias vestidas no semblante da carne,
é a mais variável de todos os Perpétuos.
A forma e o contorno de sua sombra
não têm relação com a de nenhum
corpo que esteja usando.
Ela é tangível como veludo gasto.
Delírio tende a se tornar borboletas
ou peixes dourados, agora e sempre.


Alguns dizem que a grande frustração

de Delírio é saber que, apesar de ser
mais velha que as estrelas e mais antiga
que os deuses, ela continua sendo,
eternamente, a mais jovem da família,
pois os Perpétuos não medem tempo
como nós nem vêem mundos
através de olhos mortais.

março 17, 2008

Dizem que hoje em dia Desejo raramente escolhe um ser humano como amante. Para Desejo, que é masculino e feminino, claro e escuro, velho e novo, qualquer coisa e tudo que você já quis, ou pelo que ansiou, ou de que precisou, isso é irresistível. E qual seria o motivo, afinal? O amor não é um jogo para Desejo, como é para tantos mortais, ou se é, é um jogo com um final antecipado: Desejo sempre vence. E Desejo, mais do que qualquer outra coisa, odeia ficar entediado.

(...)

Desejo sorriu. "Está feito", disse ela.

(...)

"Eu venci a aposta", disse Raimon. "O amor é mais forte que o desejo."
Mas Desejo balançou a cabeça. "Eles são a mesma coisa", respondeu.

Ninguém sabe como o conceito de amor romântico teve início na Europa ocidental. Há os que dizem que as cruzadas resgataram a música e a poesia árabe do Oriente, há quem argumente, com menos lirismo, que a invenção da lareira propiciou uma privacidade maior e criou uma atmosfera em que o amor podia florescer.

(...)


^.~

março 15, 2008

Exclamações

Feliz dia da poesia!


[Sim, sei que estou atrasada...]


Ontem, quatorze de março, foi dia da poesia. Felicidade aos poetas! Felicidade aos boêmios tortos que vêm letras no seu dia-a-dia.

Em homenagem à esse dia decidi postar uma parte de um livro do Paulo Leminski, algum hai-kai ou algo do tipo. Mas ainda agora ouvi um samba que me fez soltar aquele velho "putaquepariu!" que sai da boca quando algo toca a alma [o verso chegou no neurônio ao mesmo tempo que no coração.]

"Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz

Ê, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Ê, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já

E, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar"


João Nogueira, Dona Ivone Lara, Beth Carvalho


Putaquepariu que samba lindo!
[Nada como um bom samba num sábado à noite...
Droga! Faltou a mesa de bar.]